O Projeto Lean nas Emergências brasileiras e o exemplo do RS
O Guia de Boas Práticas do Projeto Lean nas Emergências é um documento oficial do Ministério da Saúde, elaborado no âmbito do Projeto Lean nas Emergências, e traz diretrizes, ferramentas e recomendações práticas para ajudar hospitais a reduzir superlotação e melhorar o fluxo de atendimento nas emergências do SUS.
Confira a entrevista com um dos autores do Guia de Boas Práticas do Projeto Lean nas Emergências, e coordenador do Projeto no Hospital Moinhos de Vento, Arthur Ceraso, e com o Dr. Rafael Nicolaidis, médico participante do Projeto e gestor da emergência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Quais foram os principais objetivos ao elaborar este guia?
Arthur Ceraso: O objetivo foi consolidar nove anos de experiência do Projeto Lean nas Emergências em um material prático, estruturado e replicável para todo o país. Queríamos transformar aprendizados reais em um guia acessível para gestores hospitalares, fortalecendo a capacidade das instituições para melhorar fluxos, reduzir superlotação e qualificar o atendimento nas urgências e emergências.
O que o guia aborda?
Arthur Ceraso: O guia apresenta os fundamentos do Lean Healthcare aplicados às emergências, incluindo identificação de desperdícios, gestão baseada em dados e melhoria contínua. Também detalha o passo a passo de implementação pelo método DMAIC, traz ferramentas práticas e compartilha casos reais de hospitais que obtiveram resultados concretos na redução do tempo de espera e permanência.
Como ele pode impactar a Governança e a Liderança dos hospitais para melhorar o fluxo de atendimento nas urgências e emergências?
Arthur Ceraso: O guia contribui para uma governança mais estruturada e orientada por dados. Ele ajuda líderes hospitalares a enxergarem o fluxo de forma sistêmica, da porta de entrada à alta hospitalar, fortalecendo a tomada de decisão baseada em indicadores e ritos de gestão. Isso reduz a atuação reativa e promove uma liderança mais estratégica.
Quais foram os desafios e o que teve de mais positivo no processo colaborativo, com tantos autores envolvidos na criação do guia?
O principal desafio foi integrar diferentes experiências e realidades em um documento único e coeso. O ponto mais positivo foi justamente essa construção coletiva: o guia reúne a vivência prática de gestão de instituições e especialistas vinculado aos seis hospitais de reconhecida excelência do PROADI SUS, o que o torna mais robusto, aplicável e alinhado à realidade.
O médico emergencista Dr. Rafael Nicolaidis, gestor da emergência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e participante do Projeto Lean, ressalta que o principal efeito do Lean é na forma da equipe trabalhar.
Como o trabalho no projeto Lean nas Emergências mudou a rotina do médico emergencista?
Dr. Rafael Nicolaidis: Ele torna visíveis ineficiências do sistema que antes eram tratadas como inevitáveis e cria métodos para que os próprios colaboradores aprimorem o processo de cuidado. Na prática, isso muda a rotina de todos: médicos, enfermagem e demais áreas passam a atuar com fluxos mais claros, menos retrabalho e mais foco no paciente.
Como ele contribui para a segurança do paciente?
Dr. Rafael Nicolaidis: A contribuição mais imediata do Projeto para a segurança do paciente é a redução dos tempos de espera (para o primeiro atendimento, para a definição do plano terapêutico e para o acesso ao leito quando há indicação de internação). Isso não acontece porque os profissionais passam a trabalhar mais rápido, mas porque os processos passam a funcionar melhor. O Lean atua justamente em identificar gargalos, eliminar etapas desnecessárias e organizar fluxos.
O Lean é um projeto pontual ou pode se tornar cultura institucional?
Dr. Rafael Nicolaidis: O Lean começa como projeto, evolui como método e cumpre seu maior papel quando vira cultura. Como projeto, resolve problemas específicos. Como filosofia, mostra como as instituições podem funcionar com mais segurança e menos desperdício. Torna-se cultura quando a melhoria contínua deixa de ser esforço e passa a ser hábito.
Na foto: Dr. Rafael Nicolaidis e Arthur Ceraso.
